No último novembro, estive com Cacique e Pajé num festival de que fui curador em Santa Fé do Sul (SP). No ano anterior, na mesma condição, encontrei-os em Salto (SP). Além de muito simpáticos com o público, que buscava fotos e autógrafos para as capas de CD, foram bem divertidos com todos que se aproximavam de suas figuras alegóricas. Logo que os encontrei, pedi para ver a viola "Cacique e Pajé", confeccionada pela Rozini. Toquei uns riffs do Índio Cachoeira e, em seguida, o Cacique até brincou: "Essa molecada hoje toca bem!". Para sua surpresa, toquei um trecho de "Voz do Leste", de Taiguara. O Cacique transfigurou porque tinha até se esquecido da participação que gravara no disco do autor.
Naquela tarde em que conferíamos a passagem de som, repetimos inúmeras vezes a letra a canção que fala do olhar e da voz operária do Tatuapé, sua batalha cotidiana, suas esperanças.
Depois do show, fomos jantar no Scalet, um "à la carte" da cidade. Perguntei o que eles achavam das novas duplas. Riram muito e brincaram: "Os universitários que resolveram tocar música sertaneja são pós-graduados em Química. Conseguem transformar música em cocô!"
Não tem como esquecer duas figuras dessas!
(Fabius)
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Cacique Kotóki e Fabius (Aldeia Kamayurá - Alto Xingu)
Simpatia de pessoa, o cacique Kotóki convidou-nos, no posto Leonardo, para conhecermos a tribo dos Kamayurás. Estava hospedado na aldeia dos Yawalapitis já havia dez dias. O rio Tatuari, afluente do Xingu, passa no posto da FUNAI, mas a tribo de Tacumã Kamayurá é presenteada com uma imensa lagoa cheia de peixes gigantescos. Inesquecível!!!
(Fabius)
(Fabius)
(Fabius e Kotóki na tribo Kamayurá)
terça-feira, 17 de julho de 2012
A morte dos leiteiros
Em seu poema “A morte do
leiteiro”, Carlos Drummond de Andrade relata a morte equivocada de um leiteiro, confundido com um ladrão ao entrar na casa de um de seus clientes. Existe,
nessa poesia, um caso muito empregado por professores de língua portuguesa para
exemplificarem uma oração subordinada substantiva apositiva, separada por
vírgula da oração principal: “Há no país uma legenda, que ladrão se mata com
tiro”.
O
poeta relata o trajeto de um homem do campo que leva “o leite bom para gente
ruim” na cidade. Acorda “cedinho” e, após rude atividade, ultrapassa o limite
entre a zona rural e a urbana distribuindo garrafas.
A figura do leiteiro desapareceu da cidade
porque quase não há espaço para o trabalho artesanal no campo do agrobusiness. A própria figura do homem
do campo não é mais a mesma nos últimos anos, mas a figura do ex-integrante do
campo constitui maioria no espaço urbano hoje porque todos têm um parentesco
com aqueles que, um dia, executaram o trabalho pesado do campo. Se não pegaram
“no cabo do guatambu” para a carpirem o roçado, tiveram muito trabalho com a
“criação”, jargão caipira que designa animais com finalidade de produção de
alimentos.
Não
só a figura do leiteiro desapareceu das ruas da cidade, mas, nesse processo de
modernização, caiu também a figura de outros ambulantes, como a do padeiro e a
do bucheiro, que vendia miúdos bovinos e suínos e, tocando uma buzina sobre a charrete, avisava
à freguesia que estava passando.
Todos eles foram eliminados pela
vigilância sanitária, que passou a ditar padrões de higiene aos meios de
cultivo de alimentos. Hoje, não somente o leite deve ser pasteurizado, mas
também a carne deve conter o carimbo do órgão público que a controla como
comível ou não. Os produtos da horta e da granja também não escapam de suas
inspeções.
Certamente
a população da cidade ganhou com isso, e a população do campo que migrou para a
cidade também, já que passou a ingerir produtos com mais controle e qualidade
quando não estão intoxicados por excessos de hormônios e defensivos agrícolas,
para não dizermos “veneno”.
Algo,
porém, ficou no campo, e esse é o motivo pelo qual todos migrantes têm imensa
nostalgia da roça: a honestidade da maioria dos homens que sabiam o valor de
cada minuto de trabalho. Quando se fala nos tempos de moradia do campo, muitos
brilham os olhos não pela saudade de acordar às quatro da manhã, mas pela
simplicidade de uma vida ainda constituída de valores predominantemente
positivos e tradições vinculadas a alegrias e tristeza em cada momento para ser
alegre ou triste.
Nos noticiários, quando se abordam assuntos
ligados a grandes quantias de dinheiro desviadas por golpistas de todas as
correntes, recomendamos mais Carlos
Drummond de Andrade para combater a ignorância dos cegos materialistas e se resgate um pouco da dignidade de seus antepassados.
(Fabius)
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segunda-feira, 16 de julho de 2012
Os parceiros do rio Feio
No final dos anos cinqüenta, o
estudioso Antônio Cândido realizou uma pesquisa no município de Bofete, na
região de Botucatu, acerca do modus
vivendi de uma comunidade de “caipiras” (assim mesmo designada pelo
acadêmico).
Intitulada de “Os parceiros do rio
Bonito”, a tese aborda o sistema “rudimentar” em que vivem homens e mulheres
com as dificuldades do cotidiano subsistente de trabalhadores que estabelecem
sistemas de parceria de produção.
Tal estudo despertou olhares com
outros vieses de outros pesquisadores sobre a região e sobre a caipirada do
cururu de Conchas, Laranjal Paulista, Botucatu, Tietê, Piracicaba e outras
sedes importantes de modalidades de uma cultura que singularmente se pode
chamar de paulista.
Muito se conhece sobre a contribuição
dos trovadores europeus para a formação de gerações refinadas de repentistas do
cururu, como aborda o livro de Sergio Santa Rosa “Prosa de cantador”. É sabido
que a arte europeia, com inúmeras modificações, chegou aos sertões da Serra do
Gigante Deitado, onde se criam sacis na imaginação da criançada. O canturião
Manezinho Moreira, de Conchas, fez espetaculares apresentações dessa modalidade
de trova em teatros e universidades na França, as quais eram simultaneamente
traduzidas aos literatos da Lutecia e eram automaticamente comparadas à arte de
antigos trovadores.
Há um século, aproximadamente,
avançou rumo ao oeste paulista, passando pela região dos cururueiros, as
ferrovias Sorocabana e Noroeste, invadindo o território dos índios kaingang,
também chamados de “coroados” por causa do corte de seus cabelos. Diante de
tanta informação que circula nos meios digitais hoje em dia, é lamentável que os
herdeiros das grandes fortunas ou das dívidas da paulistânia pouco conhecem
sobre os antigos donos das terras que foram invadidas por ferroviários,
cafeicultores, citricultores e canavieiros.
Os índios da etnia kaingang ficaram conhecidos
pelo antigo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) pela sua força e resistência por
defenderem seu território com muita bravura até serem “convencidos” pela índia
Vanuíre, kaingang “amansada”, vinda do Paraná e usada para que aceitassem o
processo de pacificação e submissão. O rio mais freqüentado pelos coroados foi
o Aguapeí, também conhecido por rio Feio. Nome, aliás, injusto a um dos rios
mais limpos e belos que deságua no rio Paraná.
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domingo, 15 de julho de 2012
O samba da minha terra
O
poeta Vinícius de Moraes já dizia em “Samba da benção”, uma parceria sua com
Baden Powell que “o samba nasceu lá na Bahia”. O grandioso Dorival Caymmi
também vinculou seu berço baiano com a origem desse gênero musical em inúmeros
versos, e um dos mais famosos é aquele que diz: “O samba da minha terra deixa a
gente mole / Quando se canta todo mundo bole”.
As
comunidades cariocas do samba têm suas razões para dizerem que o samba é uma
expressão musical do Rio de Janeiro uma vez que essa música reúne milhões de
pessoas naquela cidade durante o Carnaval, considerando o público e os
participantes não só no sambódromo, mas também nas manifestações do chamado
Carnaval de Rua.
O
Rio é de fato um dos mais importantes berços do samba em nosso país, mas,
quando se fala em “origem” das coisas, é impressionante ver como os mitos se
divulgam e se consolidam na formação da identidade coletiva, já que é muito
cômodo não questioná-los e aceitá-los.
Um
dos sentidos de samba se busca na evolução da palavra “semba”, do quimbundo,
que significa “batida de umbigo”, expressão que também simbolizava antigamente
um tipo de dança exercida em senzalas por escravos depois de doloroso dia de trabalho.
Sem
dúvida, esse tipo de dança que envolvia batida de umbigo era praticado tanto na
Bahia quanto no Rio de Janeiro, mas não se pode negar o prestígio de “berço do
samba” a regiões onde também havia imensa concentração de negros, como em Minas
Gerais, no Nordeste e também no estado de São Paulo.
Mario
de Andrade, na década de 1930, já escrevia sobre o “incerto rebolar de ancas”
que o impressionou numa roda de samba rural paulista que, para ele, era muito
parecido com o jongo de São Luiz do Paraitinga. Aliás, o autor de Macunaíma
mencionou na mesma época o samba rural de Campinas e de Sorocaba.
Os
núcleos afro-caipiras de Pirapora do Bom Jesus, de Vinhedo, de Quadra, na
região de Tatuí, de várias cidades do Vale do Paraíba e do “Médio Tietê”, como
a comunidade do Batuque de Umbigada de Piracicaba, Tietê e Capivari, não deixam
a menor dúvida de que o samba não nasceu só na Bahia ou no Rio de Janeiro. Talvez
grandes ícones do samba tenham morrido sem saber que o “Samba-lenço”, “Samba de
Bumbo”, “Samba de Roda” ou “Samba Rural” e a Umbigada também deixam a gente
muito mole quando se canta. Não há como não bulir!
(Fabius)
sábado, 14 de julho de 2012
Poesia marginal do Tambu ao RAP
É muito comum ouvirmos pessoas afirmando que RAP não
é música. Quem diz isso se justifica pela suposta “ausência de melodia”.
Primeiro
gostaria de chamar atenção à melodia que existe na própria fala. Quando falamos,
subimos e descemos tons, abrimos e fechamos timbres da voz. Não falamos como
robôs de forma monótona. Subimos tonalidade para perguntar e descemos para
afirmar. Esticamos as vogais para sermos enfáticos e ainda forçamos as
“explosões” oclusivas de certas consoantes para atingirmos efeitos de sentido
por meio da sonoridade.
Lembremos também que as músicas se constituem de
harmonias, melodias e ritmos variados. Para quem não sabe, RAP é uma sigla que
se forma da expressão “rhythm and poetry” (ritmo e poesia).
Assim, podemos afirmar que RAP é música
já que os arranjos dos rappers têm harmonias, ritmos e as melodias da fala por
meio dos quais a poesia se veicula para falar do cotidiano sob a ótica do
“gueto” dos manos.
Os Racionais MC’s, que têm grande
expressividade para um público formado por pessoas de diferentes níveis sociais
e intelectuais cantam com muito vigor o “negro drama” da “vida loka” em seus
álbuns.
Antes da geração de artistas contemporâneos
dos Racionais, há mais de década, Thaíde também já representava uma força do
movimento que redefine, por meio da arte,
a vida de muitos jovens que são atraídos à realidade do crime.
Esse movimento é o Hip Hop, que une a
arte gráfica nas paredes, a dança do B. Boy e a poesia do RAP no mundo todo. Há
manos em toda a América Latina, na Europa, na Ásia, na Oceania e, em todos os
lugares, a força da poesia negra e mestiça urbana se expande nas rádios
comunitárias digitais, nos centros de convivência, nas ruas.
Acredito em que o movimento tenha
atingido uma maturidade no Brasil de tal forma que já possa romper com os
moldes novaiorquinos que se associam à indumentária, ao vocabulário inglês que
designa não só o “B. Boy”, mas também o “MC”, o “freestylo” e outros elementos
do cotidiano dos jovens que se inspiram nos padrões americanos.
No Brasil, principalmente, por existirem
ricas fontes etnográficas e musicais, os jovens manos que querem expandir os
horizontes do HIP HOP, têm a obrigação de conhecer o gueto do “Tambu”, que
ritma o batuque de umbigada no triangulo Piracicaba, Tietê e Capivari. Assim
verão que, quando cantam o negro drama, a dona Anecide (de Capivari), o seu
Dado (de Piracicaba), o Bomba (de Tietê), Vanderlei Bastos, Antônio Jr.(Piracicaba)
e outros cantores e batuqueiros tiram o
fôlego de qualquer rapper do freestylo.
(Fabius)
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