Mostrando postagens com marcador Fabius. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fabius. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Júlio Santin: o maior violeiro do Brasil

Em 2006, quando fui dar uma oficina de Etnomúsica Brasileira e Ideintidade Cultural em Votorantim (SP), num encontro chamado Violeira, tive a oportunidade de falar para um público seleto porque estava constituído de grandes nomes da cena musical ligada à viola. Conheci pessoalmente nomes que eu já acompanhava de longe e que passei a encontrar nos vários encontros que surgiriam dali. Destaco desse encontro o maior violeiro do Brasil, com seus mais de dois metros de altura: Júlio Santin.
Médico pediatra, nasceu na região da Alta Paulista, é um violeiro singular porque compõe e toca uma música que muita gente não tem mais a noção de que exista. A música paulista que dialoga com a fronteira com o Mato Grosso do Sul. O fato de Júlio Santin ser de Irapuru (SP) e ter estudado medicina em Campo Grande (MS) pode ter sido um dos grandes pilares na sua formação musical, mas sua apurada técnica de tocar escorregando os dedos horizontalmente no braço da viola para executar músicas dançantes dos antigos bailes caipiras é um diferencial que coloca esse artista em patamar diferenciado no rico quadro da diversidade da viola paulista.
À frente de um dos mais importantes encontros de violeiros do Brasil, o Caipirapuru, o médico violeiro toca ao lado de grandes artistas, como Marcos Azevedo, Levi Ramiro, Zeca Collares, Rainer Brito, Luciano Queiroz, Ivan Vilela, Rogério Gulin, Ricardo Vignini, Milton Araújo, Arnaldo Freitas, Índio Cachoeira, Pereira da Viola
e incontáveis outros nomes.
Num show do trio Tamoyo, em Salto (SP), tive a oportunidade de tocar com Júlio Santin em 2010, no festival Violas e Ponteios. Na ocasião, tocamos juntos uma música de sua autoria, chamada “Festa do milho”, de seu primeiro CD (“Sentimento matuto”), um rastapé que remete bem aos ritmos das festas rurais. Depois dessa experiência, Estivemos na mesma programação do Sesc Pompeia no projeto “Violas Paulistas” (2011), na edição do Violas e Ponteios em Santa Fé do Sul (SP) em 2011, no Encontro Nacional de Violeiros em São Paulo (2014) e na Feira Nacional da Reforma Agrária (2015), no Parque da Água Branca na Capital paulista também.
Não só pela elevada estatura, mas pelas inigualáveis qualidades, é sem dúvida, um gigante da viola.
                                                                                                                                                 (Fabius)



Júlio Santin- foto divulgação

Ricardo Vignini, o cineasta Reinaldo Volpato, Júlio Santin (centro) e Fabius na Feira Nacional da Reforma Agrária no Parque da Água Branca em 2015.

Arnaldo Freitas (esquerda), Fabius (de pé à esquerda), Júlio Santin (tocando à direita) e Índio Cachoeira (de pé á direta) na oficina Encontro de Luthiers no Sesc Pompeia (SP) em julho de 2016. (foto: Henrique Susuki)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O mestre dos mestres

Já faz algum tempo, numa segunda edição do Festival Caipira de Jaú, de que eu era produtor parceiro da Secretaria de Cultura do município, tive experiências incríveis com os artistas populares que participaram do evento.
Havia uma rica agenda composta por artistas de grande expressão nessa cena, mas a minha alegria emergia nos momentos em que iria ocorrer a Missa Caipira do Nhô Chico, com toda a equipe, família, e o Juninho Caipira. Catireiros da região, como Zé Lourenço e Ari Freitas também arrasaram, mas o dia em que eu levei no meu carro a dupla Toninho e Paraná e os dois duelantes, Moacir Siqueira e Manezinho Moreira.
A dupla aqueceria o público com clássicos da música caipira e, no auge, chamaria os MCs rurais para cantar o desafio em trovas, acompanhado de viola e violão.
Passamos o dia lá num bairro rural chamado Pouso Alegre entre Jaú e Bariri. Era muita gente na plateia que daria naquela tarde para dizermos que a cultura do rodeio realmente engoliu a Cultura Caipira.
Já à noitinha, fizemos uma merenda e seguimos para Piracicaba pela estrada “dos fundos” da cidade. Peguei o celular e liguei para o Sergio Santa Rosa, em Botucatu, autor do maior registro sobre os canturiões do cururu e disse a ele que eu estava com uma carga da pesada no carro. Ele a maior festa, ,andou abraços  e nos despedimos depois de muitas alegrias rápidas. Alguns quilômetros à frente, já em Mineiros de Tietê, um cão do tamanho de um bezerro entrou na frente do carro e não pudemos poupá-lo de seu triste atropelamento.
Paramos em Dois Córregos e um mecânico nos deu um suporte para que pudéssemos seguir viagem.
Nas várias horas em que esperamos o conserto do radiador do veículo, falamos sobre as várias décadas de música, versos e cultura caipira. Mané Moreira disse que ficou vários anos longe do núcleo de Piracicaba enquanto morou no Paraná. Eu disse que, segundo Rui Tornese, Tião Carreiro desenvolveu o pagode de viola depois de uma viagem ao interior daquele estado. Manezinho me surpreendeu com a maior que já ouvi: “Tião Carreiro aprendeu tocar pagode de viola comigo. Foi quando ele esteve hospedado na minha casa que eu ensinei Tião Carreiro tocar pagode”.
Todos silenciaram durante muitos minutos. Ninguém confirmou nem desdisse o que afirmara. O carro ficou pronto e, na madrugada, chegamos à casa de Moacir Siqueira.
Sendo verdade ou não, pensei, é uma responsabilidade muito grande carregar um fardo desses. Mesmo sendo sincera, essa afirmação leva qualquer um a duvidar daquele que se apresenta como O MESTRE DOS MESTRES.
(Fabius)

Manezinho Moreira, Canutião e Violeiro do Cururu.

Moacir Siqueira: metralhadora de versos do Cururu.

Festival Caipira de Jaú (SP), 2010.

Sérgio Santa Rosa e Jonata Neto.
Santa Rosa é autor de "Prosa de Cantador", livro em que traça um longo trajeto do Cururu.
Tropa de elite do cururu: Moacir Siquera, Cido Garoto, Jonata Neto, Andinho, Carlos Caetano.





quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Gastronomia e fusões étnicas no Brasil


Em mais um ano de inexpressão de medalhas em Olimpíada, os brasileiros ainda têm um certo orgulho ao fazer menção à força do futebol que aqui se joga e que para o mundo se mostra nas Copas.  Quando se fala em música brasileira fora do país, também não há dúvida dos ricos e variados ritmos e estilos que o mundo conhece e identifica como elementos da musicalidade brasileira e suas ramificações tupiniquins, tupinambás, xavantes, bantas, iorubás, sudanesas, ibéricas, árabes, asiáticas.
Os elementos da culinária brasileira também têm marcas nítidas dessa mistura étnica que ocorre no cotidiano da brasilândia. A feijoada, por exemplo, sempre é mencionada equivocadamente nas escolas como contribuição africana à mesa do brasileiro. De fato, os feijões foram trazidos da África e, com eles, outros pratos em forma de caldos. Esquece-se, porém, que o arroz, que também compõe a feijoada, foi trazido do Oriente pelos portugueses e que a farofa é um prato que funde temperos e outros elementos opcionais à farinha, que é base da culinária indígena, fazendo da feijoada o prato mais famoso do Brasil no mundo porque é a cara desse país: miscigenado pelo tripé indígena, ibérico africano. Acrescentando as adjacências, a couve refogada e as laranjas dão um toque especial e, para quem gosta, a caipirinha completa o mosaico gastronômico.
Tive inesquecíveis aulas de geografia, que me ensinaram sobre clima, vegetação, relevo, hidrografia, população, produção de alimento, mas nunca houve uma amarração para dizer por que os churrascos gaúchos eram musicados pelos fandangos e por que essa manifestação do Sul tinha gaitas (concertinas ou sanfonas como conhecemos) e os fandangos da região de Sorocaba eram acompanhados de viola. Entender por que os gaúchos são os reis da picanha sempre foi fácil porque não foi difícil associar a produção bovina ao sul do país.
Já os mineiros foram muito cuidadosos em criar uma grife “de minas” ao associar o Estado às cachaças mais caras do mundo, aos distintos queijos que lá se produzem. Aliás, apropriaram-se de uma culinária caipira feita em São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Rio de Janeiro, que os restaurantes, hoje, estampam em banners como “comida mineira”.
Talvez porque Minas preserve uma ruralidade que São Paulo perdeu há décadas, desvinculando a culinária cotidiana do que se produz no campo, senão comeríamos rapadura com suco de laranja.
O estado de São Paulo, entretanto, agregou tantas outras culturas ao longo do século XX, que não é difícil encontrar pessoas as quais afirmam categoricamente que a capital paulista faz uma pizza melhor que a da Itália. É também notável que pipocam restaurantes japoneses em várias cidades, oferecendo o que há demais requintado na culinária nipônica. Vê-se que os elementos predominantes nas estufas de salgados das cantinas escolares são os quitutes árabes e que as crianças adoram hambúrgueres com fritas nos moldes americanos, acompanhados de coca-cola, sem dispensar os deliciosos refrigerantes caipiras, como a Itubaína de Rio das Pedras, o Guarany de Torrinha, o Dom de Ribeirão Preto, a Cotuba de Rio Preto. Os hambúrgueres, aliás, foram inventados pelos alemães de região de Hamburgo e chegaram ao Brasil na década de cinquenta.
Aos finais de semana, não há como negar que um elemento muito presente na mesa do brasileiro é o macarrão, inventado pelos orientais, molhado ao suco de tomate, inventado pelos italianos.
Quem quiser pode acrescentar pão francês com quase tudo, que fica bom.
Anualmente, muitas cidades organizam famosas Festas das Nações, e o elemento que indiscutivelmente leva multidões a esses eventos é a gastronomia, que se sobrepõe à música, às danças e, se tivesse, ao futebol, que perderia para as infinidades atrações gustativas que, na verdade, já estão quase diariamente na mesa tão fundida do brasileiro.
                                                                                            (Fabius)
(Feijoada: fusão de elementos num prato cheio de cores e sabores)

(Modelo gaúcho de servir churrasco)

(Das cantinas italianas de São Paulo às comunidades ítalo-caipiras: "macaronaaada")

(Comida caipira: apropriada como "comida mineira")






segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Submissão cultural


O acesso a informações e a produtos importados hoje é um fato que faz parte da realidade dos jovens brasileiros e da maioria dos países do mundo. O discurso da sociedade quando houve uma certa “democratização” dos meios digitais foi de que haveria interação cultural entre os povos, e isso tornaria o ser humano menos ignorante por entender diferenças culturais por ter acesso ao modus vivendi de países distantes. Acontece que não se buscam referências culturais da Venezuela ou da Guiana na internet. Não se procuram conhecimentos acerca do cotidiano angolano ou esloveno.
A internet é um instrumento de comunicação muito empregado no mundo todo sobretudo para estabelecer contato entre internautas, e isso é uma qualidade insuperável sobre outros meios, mas há um cuidado que se deve tomar quando se trata de uma fonte de pesquisa cultural.
Certa vez, eu voltava de Ribeirão Preto e parei num restaurante próximo a uma colônia de japoneses e descentes radicados ali há muitas décadas. Havia um jovem cabeludo dessa comunidade com uma camiseta preta estampando o nome de uma banda de rock. Não hesitei e, de cara, perguntei ao rapaz que instrumento ele tocava. Ele disse com decidida dicção: “GUITARRA”.
Perguntei que guitarra ele tinha, e ele respondeu possuir uma Ibanez. Então perguntei se ele gostava de Steve Vai, um endorser dessa marca, e ele emendou que também ouvia e tocava coisas de Joe Satriani, mestre de Vai e também anunciante dessa guitarra. Daí completamos esse assunto falando de amplificadores, equipamentos e timbres extraídos desse instrumento e do fácil acesso a informações sobre artistas e músicas que havia na internet.
Virei o rumo da conversa perguntando sobre as atividades culturais da colônia que se vinculavam às raízes nipônicas e sobre a relação que os jovens dali tinham com tais atividades. Ele estranhou minha pergunta e disse que não havia uma grande adesão espontânea dos jovens para participarem de Bon Odori e outros ritos. Falou que há uma boa parcela dos netos de japoneses que consideram “mico” aquilo tudo. Eu disse: “Que pena!”. Antes de me despedir, perguntei seu nome e ele disse também com boa entoação: “ISAQUE”, um bonito nome hebraico que chamou o filho de Abraão com Sara no Velho Testamento.
Saí dali pensando que aquele garoto tinha o perfil de uma boa parte da juventude brasileira. Descendente de imigrante e reconhece essa condição, mas não se sente mais vinculado às antigas tradições negando-as, assim como também se negam as raízes brasileiras quando se pensa em cultura.
Essa identidade cega com a cultura estadunidense, somada à negação da identidade cultural brasileira, pode comprometer toda uma geração de jovens, levando-os à total submissão cultural. É preciso reconhecer que não são mais japoneses, italianos, espanhóis ou árabes ortodoxos, mas que são jovens brasileiros e que precisam fortalecer suas bases culturais e mudar a cara do país com seus recursos. Sem dúvida, há muita coisa boa advinda dos Estados Unidos e de outros países, mas respirar só essa arte por meio da internet pode ser um risco.
(Fabius)


(Grandes tambores japoneses)

(Festa de Atibaia, cidade maravilhosa)

(Tambores do Bon Odori)



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Três é demais


Entre as diferentes possibilidades de um grupo musical, a formação compacta dos trios é, de fato, desafiadora. Os trios buscam, com recursos mínimos, o máximo de sua musicalidade, ao contrário dos grandes agrupamentos de músicos, cujo exemplo máximo de sofisticação são as orquestras, nas quais atuam muitos instrumentistas em diferentes linhas harmônicas, melódicas e percussivas.
 Com uma linguagem simples, os pontos fortes dessa formação são a harmonia e o entrosamento existentes entre os integrantes, o que torna possível, muitas vezes, transformar o vácuo sonoro num recurso musical a ser valorizado e explorado.
A partir do início do século XX, quando o Trio Aurora abandonou o antigo rótulo de “Terceto” ao gravar o primeiro disco com a designação de “Trio”, muitos outros passaram a enriquecer a discoteca brasileira.
Nas últimas décadas, um exemplo de trio com grande impacto no contexto internacional é o grupo “The Police” que, na contramão de músicos e grupos de rock que surgiam nas décadas de 70 e 80 buscando técnicas virtuosas para tocar suas canções, passou a influenciar bandas no mundo todo ao apostar na simplicidade.
Esse formato continua a ser redescoberto e explorado e, no Brasil, vários deles se destacam entre diferentes origens e estilos, como o trio Curupira (jazz), o trio Tamoyo (etnomúsica brasileira), o Meretrio (jazz), o Chorando a Tempo (choro) e o internacional Krisium, que faz um death metal de arrepiar.
Ter espaço para duos, trios, quartetos, quintetos até as orquestras, passando por gêneros diferentes, é de extrema importância para o exercício da democracia musical em nosso país.
(Fabius)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SWU e a divisão da juventude brasileira


Nos últimos dois anos, ressaltaram-se alguns festivais de rock no país, mas o SWU, devido à proposta de “ecologicamente sustentável” e ao peso da publicidade se destacou entre os demais. Todos esses encontros ficaram marcados por inúmeros fatos gerados pelas comissões organizadoras, que, na maioria dos casos, não estavam preparadas para receber tanta gente..
Algo de interessante, porém, ressalta-se diante de imperfeições ocorridas e muito divulgadas pela mídia após cada evento. Não há como desprezar as multidões presentes nesses festivais, vindas de todo o país e de outras partes do mundo para o interior paulista.
As aproximadamente 50 mil pessoas que estavam na fazenda Maeda, por exemplo, ouvindo Rage Against The Machine não viam clipes da banda na MTV, não ouviam suas “canções-porrada” em trilhas sonoras de novelas, salvo a trilha de “Matrix” no cinema.
Em outras palavras, os jovens e adultos que estavam presentes nos eventos não estavam ali por um modismo ditado pela onda de nomes divulgados, por exemplo, no circuito de rodeios ou nas grandes festas do agronegócio, como as que acontecem na região de Ribeirão Preto nas quais se vendem produtos que atendam às necessidades de agricultores e pecuaristas. Numa feira, como a Agrishow, acontecem inúmeros shows de duplas do cenário denominado “sertanejo universitário”.
Enquanto o setor cultural dessas feiras privilegia o gênero musical mais querido pelo freqüentador e se afina com seu público com as gigantes estruturas em que se apresentam as duplas sertanejas mais famosas do Brasil, na versão de Itu, o festival SWU levou, entre outras várias, uma banda cujo guitarrista dedicou uma das canções aos “irmãos do MST”.
Sem partidarismo e ideologias vinculadas a qualquer uma dessas partes, isto é, ao setor que se associa ao agronegócio ou aos “irmãos do MST”, é importante que os promotores de cultura do país vejam que existem pessoas que querem mais opções culturais e não aceitam a ditadura de gêneros culturais oferecidos “goela abaixo” por alguns canais de televisão.
A juventude sempre está dividida, portanto faltam festivais de música em relação à enorme quantidade de festas de peão!
(Fabius)

(Zack de la Rocha, vocalista do Rage Against the Machine)



(Tom Morello, guitarrista com adesivo do Sendero Luminoso)


(Homenagem ao MST)





sábado, 28 de julho de 2012

No coração do Brasil

Depois de quatro horas de estrada de terra e mais nove horas de barco descendo o rio Culuene, chegamos ao rio Xingu. Havia muitos jacarés gigantes nas margens. Muita tensão passando pela tribo dos Kuikuro. Na tarde anterior, havia visto o cacique Afukaká Kuikuro almoçando em Canarana. Já no Alto Xingu, quebramos à esquerda para pegar o rio Tatuari, o mesmo pelo qual chegaríamos ao posto Leonardo no dia seguinte.
Descemos na aldeia Yawalapiti, onde se encontrava uma enorme comissão nos esperando. Todos nus, homens e mulheres. Uma paisagem humana colorida e bonita. Anuyá nos guiou à oca de seu pai, onde ficaríamos os próximos dias.
Muita fome para muitos peixes assados dentro da oca. Guarnição de beiju, também chamada de tapioca, feita de mandioca brava pelas índias. Duas iguarias maravilhosas para todos os dias em todas as horas: tucunaré defumado e beiju.
Estava ocorrendo a festa das mulheres. Vários dias dançando e cantando num transe poucas vezes interrompido. Os homens dançavam em círculo na casa da flauta, destinada só aos homens, um espaço sagrado que guardava a misteriosa flauta do Jacuí. Esse instrumento era realmente de dar arrepios. Ali se ouvia o verdadeiro som da alma dos povos floresta. Tudo muito surpreendente para quem não mede distâncias andando atrás de etnomúsica brasileira.
O Cacique Aritana, com bastante humor, ensinava os meninos a executarem toques básicos de flauta com pedacinhos de bambu.
À noite, as onças pintadas miavam bem perto das ocas. Despertava medo, mas nada se comparava ao sentimento de olhar o céu extremamente estrelado, às vezes cortado por minúsculos aviões.
Ao amanhecer, o prazer de acordar na rede, olhar para os lados e, de dentro da oca, saber que um dia inteiro haveria de ser vivido explorando cores, sabores e odores.

(Festa das mulheres)

(Casa da Flauta.I)

(Casa da flauta.II)

(Cacique Aritana)

(Pôr-do-sol)

(Arquitetura para poucos)

(Treino de Hucá-hucá, um tipo de jiu-jitsu do Alto Xingu)





sexta-feira, 27 de julho de 2012

Artesãos de viola


Quando comecei a estudar viola caipira, há alguns anos, comprei um instrumento  usado confeccionado por uma indústria localizada no interior  estado de São Paulo. Era um bom instrumento para um iniciante, mas o artesão Kléber Silveira, de Avaré, encantou-me com um modelo  pequeno de viola, que ele chamava de catireira.  Aos poucos, fui conhecendo outros modelos do próprio Kléber, o que me levou a descortinar um universo maravilhoso de sonoridades e concepções históricas sobre esse instrumento que está no país desde o século XVI.
Na busca de instrumentos que emitissem sons diferentes, nos últimos anos, tenho feito um mapeamento de artesãos, fabricantes de viola caipira, no estado de São Paulo e tenho ficado surpreso com alguns trabalhos.
No médio Tietê, no município de Pirajuí, tive a oportunidade de conhecer o grande violeiro e artesão Levi Ramiro. Sem dúvida, faz violas convencionais de elevadíssima qualidade, mas não há quem não se espante com a qualidade de suas violas de cabaça.
Subindo o mesmo rio, rumo a Botucatu, encontramos os instrumentos do Soler, as violas de Seu Pedro e, recentemente, apresentou-se à comunidade de violeiros o jovem João Luthier, com suas violas requintadíssimas.
Rio acima, chegando a Tatuí, encontra-se o famoso Joacir, antes sediado em São José do Rio Preto, fabrica as violas mais caras do estado de São Paulo. Um instrumento dele, que demora até seis meses para ser entregue sob encomenda, ultrapassa a casa dos três mil reais.
Seu vizinho, na região de Sorocaba, o luthier Sforcin também não fica atrás no que diz respeito a preço e qualidade. Aliás, Sorocaba é um dos mais importantes pilares da cultura que se vincula a esse instrumento.
As violas Mater, de Amparo, fazem muito sucesso entre os violeiros de Piracicaba graças ao incentivo de lojistas ou de professores, como Rafael Danelon, mas, nessa região, há muita coisa boa de fabricantes de Iracemápolis, Americana e até mesmo  Campinas, que é uma cidade grande, mas mantém vínculos com a cultura rural.
Mais ao sul do estado, em Assis, há um jovem luthier que se destaca por inovar com um modelo de viola dinâmica, uma versão desse instrumento cujo som é mais volumoso, com timbres metálicos, devido a um tampo de metal. Trata-se de Luciano Queiroz, artesão que já se formou ciências agrárias em Jaboticabal, mas optou pelo caminho da arte que traz um gigantesco rastro de história que se liga às atividades agrícolas. Um percurso, aliás, inverso às tendências que dominam o campo hoje.
Enquanto o agronegócio “desruraliza” o campo, a força da cultura caipira se consuma pelas mãos dos artesãos, como Luciano, que se fortalecem no Vale do Paraíba, no Vale do Ribeira, no Litoral Sul paulista, além das indústrias Giannini, Xadrez e Rossini, que mantiveram viva a construção do instrumento enquanto a história da música do campo se refez nas últimas décadas. 
(Fabius) 
Luciano Queiroz e sua viola dinâmica: som alto e "metálico"
                     
                  
                         
                        Viola de cabaça usada no trio Tamoyo, feita por Levi Ramiro


                  Levi Ramiro e uma de suas criações com cabaças
Teatro municipal de Jaú - SP

Viola confeccionada por Levi Ramiro



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Trio Tamoyo: Eleanor Rigby (The Beatles)

Adaptação de Eleanor Rigby: compassos estranhos que o trio Tamoyo adora tocar!! Sei que The Beatles ficariam magoados com as mudanças, mas não é só Quentin Tarantino que pode reescrever a história do jeito que ele quer!!!

domingo, 22 de julho de 2012

Os barbarismos de Adoniran Barbosa


O saudoso Adoniran Barbosa já teria passado a casa dos cem anos no dia 6 de agosto deste ano.
Imortalizado por seu jeito popular de cantar sobre temas que abordavam o cotidiano sob a ótica do cidadão popular excluído da sala de aula, colocando no centro da cena um narrador com as marcas linguísticas fora da modalidade padrão, isto é, da norma “culta”, como insistem os gramáticos ortodoxos.
Adoniran Barbosa já foi mais de uma vez abordado em provas de vestibulares em que as bancas examinadoras apresentam um texto seu em formato original e, em seguida, exige que os candidatos façam uma análise do texto e uma correção gramatical, empregando os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos escolares.
Um vestibular paulista, certa vez, apresentou a canção “Saudosa maloca” como uma “manifestação artística em que ocorre sobreposição do falar popular sobre a norma culta”. Solicitou aos candidatos que explicassem o que ocorria sistematicamente com o “-r” final e o “-lh-” medial das palavras da canção.
Um candidato deveria, então, dizer que o “-r” final era eliminado na letra da canção e que o “-lh-” medial era substituído por “i”. Assim, a palavra “cobertô”, escrita na letra de Adoniran, deveria, após a “correção” do candidato, ser escrita  “cobertor” . Da mesma maneira, a palavra “paia”, deveria, na resposta da prova do vestibulando, ser grafada “palha” após sua intervenção.
Desse modo, os membros da banca examinadora da prova certamente acharam que cumpriram seus papéis de educadores e avaliadores das capacidades intelectuais dos ingressantes do ensino “superior”, seja desintegrando uma canção tão marcante como essa, seja intimidando outras manifestações artísticas, como as composições de Cartola, Angelino Oliveira, Raul Torres, por exemplo, que também ressaltam a fala popular.
Há obras intocáveis por sua beleza, que merecem total respeito do público geral e também da academia. Não há como desprezar “Trem das onze”, “Samba do Arnesto”, “Tiro ao Álvaro”, muito menos “Saudosa maloca”, ou mesmo “Bom dia tristeza”, parceria de Adoniran com Vinícius de Moraes, em que este escreve uma letra também com marcas coloquiais para que aquele acrescente harmonia e melodia.
Adoniran Barbosa, filho de imigrantes italianos, nasceu em Valinhos e mudou-se para São Paulo, terra de sambistas da pesada, embora haja compositor que considere “Sampa” um “túmulo do samba”. Fez muito sucesso com suas letras marcantes porque trazia em seus versos a luta do sobrevivente que, embora viva as dificuldades do cotidiano, ainda vê poesia no mundo, seja nordestino, seja sulista, caiçara ou caipira, isto é, o brasileiro que usa a língua como um veículo de comunicação, e não como moeda por meio da qual pode ser aprovado em concurso e obter títulos e cargos em nossa sociedade marcada por tanta pluralidade cultural, onde só se admite a língua dos “cultos”.     
- Viva Adoniran Barbosa!
(Fabius)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Cacique, Pajé e a "Voz do Leste"

No último novembro, estive com Cacique e Pajé num festival de que fui curador em Santa Fé do Sul (SP). No ano anterior, na mesma condição, encontrei-os em Salto (SP). Além de muito simpáticos com o público, que buscava fotos e autógrafos para as capas de CD, foram bem divertidos com todos que se aproximavam de suas figuras alegóricas. Logo que os encontrei, pedi para ver a viola "Cacique e Pajé", confeccionada pela Rozini. Toquei uns riffs do Índio Cachoeira e, em seguida, o Cacique até brincou: "Essa molecada hoje toca bem!". Para sua surpresa, toquei um trecho de "Voz do Leste", de Taiguara. O Cacique transfigurou porque tinha até se esquecido da participação que gravara no disco do autor. 
Naquela tarde em que conferíamos a passagem de som, repetimos inúmeras vezes a letra a canção que fala do olhar e da voz operária do Tatuapé, sua batalha cotidiana, suas esperanças.
Depois do show, fomos jantar no Scalet, um "à la carte" da cidade. Perguntei o que eles achavam das novas duplas. Riram muito e brincaram: "Os universitários que resolveram tocar música sertaneja são pós-graduados em Química. Conseguem transformar música em cocô!" 
Não tem como esquecer duas figuras dessas!
(Fabius)



Cacique Kotóki e Fabius (Aldeia Kamayurá - Alto Xingu)

Simpatia de pessoa, o cacique Kotóki convidou-nos, no posto Leonardo, para conhecermos a tribo dos Kamayurás. Estava hospedado na aldeia dos Yawalapitis já havia dez dias. O rio Tatuari, afluente do Xingu, passa no posto da FUNAI, mas a tribo de Tacumã Kamayurá é presenteada com uma imensa lagoa cheia de peixes gigantescos. Inesquecível!!!
(Fabius)
(Fabius e Kotóki na tribo Kamayurá)


terça-feira, 17 de julho de 2012

A morte dos leiteiros


Em seu poema “A morte do leiteiro”, Carlos Drummond de Andrade relata a morte equivocada de um leiteiro, confundido com um ladrão ao entrar na casa de um de seus clientes. Existe, nessa poesia, um caso muito empregado por professores de língua portuguesa para exemplificarem uma oração subordinada substantiva apositiva, separada por vírgula da oração principal: “Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro”.
            O poeta relata o trajeto de um homem do campo que leva “o leite bom para gente ruim” na cidade. Acorda “cedinho” e, após rude atividade, ultrapassa o limite entre a zona rural e a urbana distribuindo garrafas.
            A figura do leiteiro desapareceu da cidade porque quase não há espaço para o trabalho artesanal no campo do agrobusiness. A própria figura do homem do campo não é mais a mesma nos últimos anos, mas a figura do ex-integrante do campo constitui maioria no espaço urbano hoje porque todos têm um parentesco com aqueles que, um dia, executaram o trabalho pesado do campo. Se não pegaram “no cabo do guatambu” para a carpirem o roçado, tiveram muito trabalho com a “criação”, jargão caipira que designa animais com finalidade de produção de alimentos.
            Não só a figura do leiteiro desapareceu das ruas da cidade, mas, nesse processo de modernização, caiu também a figura de outros ambulantes, como a do padeiro e a do bucheiro, que vendia miúdos bovinos e suínos  e, tocando uma buzina sobre a charrete, avisava à freguesia que estava passando.
Todos eles foram eliminados pela vigilância sanitária, que passou a ditar padrões de higiene aos meios de cultivo de alimentos. Hoje, não somente o leite deve ser pasteurizado, mas também a carne deve conter o carimbo do órgão público que a controla como comível ou não. Os produtos da horta e da granja também não escapam de suas inspeções.
            Certamente a população da cidade ganhou com isso, e a população do campo que migrou para a cidade também, já que passou a ingerir produtos com mais controle e qualidade quando não estão intoxicados por excessos de hormônios e defensivos agrícolas, para não dizermos “veneno”.
            Algo, porém, ficou no campo, e esse é o motivo pelo qual todos migrantes têm imensa nostalgia da roça: a honestidade da maioria dos homens que sabiam o valor de cada minuto de trabalho. Quando se fala nos tempos de moradia do campo, muitos brilham os olhos não pela saudade de acordar às quatro da manhã, mas pela simplicidade de uma vida ainda constituída de valores predominantemente positivos e tradições vinculadas a alegrias e tristeza em cada momento para ser alegre ou triste.
 Nos noticiários, quando se abordam assuntos ligados a grandes quantias de dinheiro desviadas por golpistas de todas as correntes,  recomendamos mais Carlos Drummond de Andrade para combater a ignorância dos cegos materialistas e se resgate um pouco da dignidade de seus antepassados.
(Fabius)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os parceiros do rio Feio


No final dos anos cinqüenta, o estudioso Antônio Cândido realizou uma pesquisa no município de Bofete, na região de Botucatu, acerca do modus vivendi de uma comunidade de “caipiras” (assim mesmo designada pelo acadêmico).
Intitulada de “Os parceiros do rio Bonito”, a tese aborda o sistema “rudimentar” em que vivem homens e mulheres com as dificuldades do cotidiano subsistente de trabalhadores que estabelecem sistemas de parceria de produção.
Tal estudo despertou olhares com outros vieses de outros pesquisadores sobre a região e sobre a caipirada do cururu de Conchas, Laranjal Paulista, Botucatu, Tietê, Piracicaba e outras sedes importantes de modalidades de uma cultura que singularmente se pode chamar de paulista.
Muito se conhece sobre a contribuição dos trovadores europeus para a formação de gerações refinadas de repentistas do cururu, como aborda o livro de Sergio Santa Rosa “Prosa de cantador”. É sabido que a arte europeia, com inúmeras modificações, chegou aos sertões da Serra do Gigante Deitado, onde se criam sacis na imaginação da criançada. O canturião Manezinho Moreira, de Conchas, fez espetaculares apresentações dessa modalidade de trova em teatros e universidades na França, as quais eram simultaneamente traduzidas aos literatos da Lutecia e eram automaticamente comparadas à arte de antigos trovadores.
Há um século, aproximadamente, avançou rumo ao oeste paulista, passando pela região dos cururueiros, as ferrovias Sorocabana e Noroeste, invadindo o território dos índios kaingang, também chamados de “coroados” por causa do corte de seus cabelos. Diante de tanta informação que circula nos meios digitais hoje em dia, é lamentável que os herdeiros das grandes fortunas ou das dívidas da paulistânia pouco conhecem sobre os antigos donos das terras que foram invadidas por ferroviários, cafeicultores, citricultores e canavieiros.
Os índios da etnia kaingang ficaram conhecidos pelo antigo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) pela sua força e resistência por defenderem seu território com muita bravura até serem “convencidos” pela índia Vanuíre, kaingang “amansada”, vinda do Paraná e usada para que aceitassem o processo de pacificação e submissão. O rio mais freqüentado pelos coroados foi o Aguapeí, também conhecido por rio Feio. Nome, aliás, injusto a um dos rios mais limpos e belos que deságua no rio Paraná. 



sábado, 14 de julho de 2012

Poesia marginal do Tambu ao RAP


É muito comum ouvirmos pessoas afirmando que RAP não é música. Quem diz isso se justifica pela suposta “ausência de melodia”.
 Primeiro gostaria de chamar atenção à melodia que existe na própria fala. Quando falamos, subimos e descemos tons, abrimos e fechamos timbres da voz. Não falamos como robôs de forma monótona. Subimos tonalidade para perguntar e descemos para afirmar. Esticamos as vogais para sermos enfáticos e ainda forçamos as “explosões” oclusivas de certas consoantes para atingirmos efeitos de sentido por meio da sonoridade.
Lembremos também que as músicas se constituem de harmonias, melodias e ritmos variados. Para quem não sabe, RAP é uma sigla que se forma da expressão  “rhythm and poetry” (ritmo e poesia).
Assim, podemos afirmar que RAP é música já que os arranjos dos rappers têm harmonias, ritmos e as melodias da fala por meio dos quais a poesia se veicula para falar do cotidiano sob a ótica do “gueto” dos manos.
Os Racionais MC’s, que têm grande expressividade para um público formado por pessoas de diferentes níveis sociais e intelectuais cantam com muito vigor o “negro drama” da “vida loka” em seus álbuns.
Antes da geração de artistas contemporâneos dos Racionais, há mais de década, Thaíde também já representava uma força do movimento  que redefine, por meio da arte, a vida de muitos jovens que são atraídos à realidade do crime.
Esse movimento é o Hip Hop, que une a arte gráfica nas paredes, a dança do B. Boy e a poesia do RAP no mundo todo. Há manos em toda a América Latina, na Europa, na Ásia, na Oceania e, em todos os lugares, a força da poesia negra e mestiça urbana se expande nas rádios comunitárias digitais, nos centros de convivência, nas ruas.
Acredito em que o movimento tenha atingido uma maturidade no Brasil de tal forma que já possa romper com os moldes novaiorquinos que se associam à indumentária, ao vocabulário inglês que designa não só o “B. Boy”, mas também o “MC”, o “freestylo” e outros elementos do cotidiano dos jovens que se inspiram nos padrões americanos.
No Brasil, principalmente, por existirem ricas fontes etnográficas e musicais, os jovens manos que querem expandir os horizontes do HIP HOP, têm a obrigação de conhecer o gueto do “Tambu”, que ritma o batuque de umbigada no triangulo Piracicaba, Tietê e Capivari. Assim verão que, quando cantam o negro drama, a dona Anecide (de Capivari), o seu Dado (de Piracicaba), o Bomba (de Tietê), Vanderlei Bastos, Antônio Jr.(Piracicaba) e  outros cantores e batuqueiros tiram o fôlego de qualquer rapper do freestylo.
(Fabius)
 

Trio Tamoyo:"Trenzinho Kaingang" - Sesc Pompeia.


Um mundo erudito do “violista-caipira”


Nos estudos da morfologia da língua, existem os morfemas, que constituem partes das palavras: o radical, a vogal temática, as desinências e os afixos. Estes se “ramificam” em prefixo e sufixo. Uma pessoa comum, que não viva de língua portuguesa, poderia questionar o que significam essas palavras estranhas.
Esclarecendo-se, teria respostas como: o radical é o “fixo”, que remete ao significado essencial da palavra como, por exemplo, “menin-” em “menino”, “meninada”, “menininhas” leva o usuário da língua a pensar em crianças ou em algo relativo a elas.
Há muitas possibilidades de combinações de usos dos morfemas, e os resultados são surpreendentes. Mas, no cotidiano do brasileiro, os enriquecedores da língua são os afixos, ou seja, os “móveis”, os “não-fixos”, que são acrescidos antes e depois do radical. Com a fusão de “alfa” e “beta”, por exemplo, formamos “alfabeto” e, seguindo dessa nova palavra, podemos acrescentar afixos para termos “analfabeto”, analfabetismo”, “alfabetizado”.
Para designar profissões, os sufixos conferem mais ou menos prestígio a determinados profissionais. O sufixo “-eiro” separa algumas classes profissionais dos grupos constituídos de “-sta”, “-euta”, “-ólogo” e outros. Podemos conferir a segregação sócio-profissional que põe, de um lado, o ferreiro, o pedreiro, o carpinteiro, o marceneiro, o jornaleiro e, de outro, o jornalista, o dentista, o fisioterapeuta, o biólogo, o geólogo, o farmacêutico. O profissional de marketing não se identifica como “marketeiro”, mas como “mercadólogo”. Já a designação “engenheiro” foge à regra já que a classe alcançou reconhecimento singular na sociedade.
No campo artístico também se nota essa segregação de prestígios. Numa orquestra ou em outras áreas da música, por exemplo, temos o “violinista”, o “violista”, o “violoncelista”, o “contrabaixista”, o “trompetista”, o “trombonista”, o “tubista” e muitos outros “-istas”, como o “gaitista”, o “violonista”, o “baterista”, que não se confunde com o “percussionista”.
No universo da música popular, encontram-se músicos e dançarinos que lutam há séculos pela dignidade de sua arte: o violeiro, o catireiro, o fandangueiro, o batuqueiro, o cururueiro, o jongueiro, o congadeiro.
O que muitos não sabem é que existe um universo inesgotável de conhecimentos em cada segmento que envolve os artistas populares do Brasil. Alguns setores, porém, insistem em pôr à margem elementos desse mosaico, evidenciando que falta erudição aos que desprezam o mundo do “viola-caipirista” ou do “violista-caipira” se assim preferem chamar! 
(Fabius)

ESPECIARIAS (Fabius) by Trio Tamoyo


Os nambiquaras e a cultura da higiene

Os nambiquaras somam um grupo bem expressivo de aproximadamente 1500 integrantes que habitam suas reservas no Mato Grosso e em Rondônia. São muito respeitados pelos estudiosos já que têm uma cultura que os diferencia dos demais grupos indígenas do país.
Antes de se tornarem alvo das invasões de garimpeiros em seus territórios na década de sessenta ou serem acometidos por grupos de seminaristas que buscam convencê-los a não mais dançarem para o sol e para a lua e terem somente uma visão religiosa totalmente distante de suas referências, tornaram-se famosos por meio de uma imagem cinematográfica de Marechal Rondon vestindo-os.
Uma característica muito marcante dos nambiquaras é o intenso convívio com seus animais de estimação. Embora comam carne de caça, é comum que filhotes de espécies variadas sejam adotados e tratados com carinho em meio à criançada da aldeia. Caso tenham de migrar de uma região para outra à busca de melhores condições para extração de alimentos, levam a bicharada com suas tralhas.
Não só os nambiquaras têm essa relação com seus animais no país, mas também inúmeros grupos indígenas brasileiros, além de toda a população de não-índios que reside as cidades tupiniquins.
É impressionante ver o mercado milionário que envolve o setor do pet-shop no país. Encontram-se, nas lojas desse setor, serviços de banho e tosa, venda de rações ou de adereços que enchem a rotina de cães, gatos, peixes, pássaros e outros de atividades voltadas para o espaço que ocupam em casas e apartamentos de seus donos.
Não há como negar que um animal de estimação mude a vida de uma criança para melhor. Existem inúmeras razões para que um pai ou uma mãe abra um espaço no lar para que uma criança passe a ter um convívio com um pet, seja terrestre ou aquático. Uma delas é a responsabilidade de alimentar o bichinho e, como prêmio, ganhar carinho do animal. Outra coisa importante e aprender ter responsabilidade de limpar o quintal, mesmo que o bicho vá sujá-lo em seguida. Afinal, ninguém gosta de usar banheiro sujo. Nem o cachorro!
O que os pais não podem fazer é ensinar a criança a levar o bicho de estimação fazer sujeira na calçada do vizinho, pois, assim, a rua viraria um banheiro canino a céu aberto.
Aliás, vemos, hoje em dia, muitos adultos que se julgam mais civilizados do que os nambiquaras fazendo esse tipo de coisa.
Desse modo, não dá para pensar em civilização sem a cultura da higiene presente.
Se herdamos de nossos ancestrais a necessidade de um bicho de estimação, é importante que o tenhamos nas melhores condições possíveis.
(Fabius)